Veja antes e depois
Respondo a Camila Pessoa. A postura de Veja, cuja equipe fundadora dirigi de setembro de 1968 a fevereiro de 1976, foi neste período determinada pela prática do jornalismo correto e, portanto, de oposição à ditadura. Sua redação foi assolada pela censura até março de 1974, quando houve três semanas de livre trânsito, digamos assim, em seguida à posse do ditador Ernesto Geisel. Logo a censura voltou, pois logo mostramos nossa independência. Ou, por outra, não nos deixamos seduzir pela condescendência do regime que se arvorava benevolente. Voltou piorada. Tivemos de organizar um sistema de transporte do material redacional até as dependências da Polícia Federal em São Paulo, de terça-feira a sexta, e no sábado (naquele tempo a revista circulava às segundas) até a residência particular dos censores. A censura abandonou o campo somente depois da minha saída da direção de Veja, ao cabo das pressões do então ministro da Justiça Armando Falcão, que enxergava em mim um inimigo (palavra dele) irredutível. Para minha alegria. Ao contrário do que conta em seu livro Notícias do Planalto aquele que, anos depois, tomaria meu lugar, Mario Sergio Conti, não fui demitido, e sim me demiti, para não receber um único, escasso centavo dos Civita, figuras da pior qualidade. Ao saírem Mino e a censura, a revista bandeou-se para o outro lado, mas manteve certo nível, dirigida por José Roberto Guzzo, secundado por Elio Gaspari. Começou a descambar de vez com a direção de Conti, ao apoiar a candidatura do anti-Lula da vez, Fernando Collor, e hoje atinge um ponto ainda mais baixo. Duvido, porém, que tenha chegado ao fundo do poço. Com o fim da censura, a Abril recebeu um empréstimo de 50 milhões de dólares da Caixa Econômica Federal, dirigida então por Karlos Rischbieter, depois de recebida autorização do próprio Geisel. Rischbieter conta o episódio no seu livro de memórias, recentemente publicado. Explica que o ditador exigiu minha cabeça antes de permitir o empréstimo. Para outra alegria minha.
quarta, 03 de dezembro de 2008 às 17:39
Cacho de esclarecimentos
terça, 02 de dezembro de 2008 às 18:47
O orelhudo e Danny
O juiz De Sanctis condenou o orelhudo a 10 anos de prisão e a uma multa de 14 milhões de reais, no processo que colocou Daniel Dantas no banco dos réus por sua tentativa frustrada de corromper um delegado da Operação Satiagraha. A sentença é muito bem alicerçada e esta o presidente do STF, Gilmar Mendes, vai ter de engolir em perfeito silêncio. Claro que Dantas recorrerá, e neste caso caberá ao STF a decisão final. A qual, é provável, reduzirá a pena. Por ser réu primário, Daniel Dantas responde em liberdade, no entanto, na próxima condenação não vai escapar. E as pendengas em andamento são mais de uma. Recebi dois telefonemas. Um de Totó Riina, diretamente do presídio de segurança máxima em que se hospeda. O outro de Jean-Paul Lagarride, diretamente do Deux Magots, onde tomava um copo de Sauvignon Blanc.
Disse Totó: “Agora o Brasil já não encanta tanto, mas só sossego quando o orelhudo for para a cadeia de vez”. Respondi: “Como dizia Danny Kaye, veremos o que veremos”. “O senhor acha que ainda se safa?”, perguntou o boss de Corleone. Respondi: “Sei lá, o Brasil é ainda o Brasil da minoria branca...”
Disse Jean-Paul: “Estou a tomar um vinho em sua homenagem, você deve estar feliz”. Respondi: “Feliz? Que exagero... Dantas é um símbolo, a pessoa não me interessa. Símbolo da falcatrua premiada. Quero apenas justiça, a bem de todos nós, a bem do País”. Ao cabo, voltei a evocar Danny Kaye.
terça, 02 de dezembro de 2008 às 18:32
Gramsci e o paraíso
Há quem garanta que o Paraíso é um lugar tedioso. Amigos internautas lamentam que eu me arvore a Dante Alighieri e coloque Gramsci ali no empíreo, em companhia de Beatriz. Eu confio na visão do poeta: os críticos contemporâneos tendem a considerar esta parte da Divina Comédia como o ponto mais alto da obra dantesca. De todo modo, recomendo tomar com ironia a minha audácia. A partir da seguinte idéia: se o Paraíso existe, para lá irão os grandes espíritos da humanidade enquanto o inferno poderá ser reservado a muitos que fizeram a santa comunhão ao menos na Páscoa.
terça, 02 de dezembro de 2008 às 13:52
Lula e as eleições
Ao considerar a repercussão do meu post sobre a simpatia que Lula subitamente nutria por José Serra, sinto a necessidade de alguns esclarecimentos:
Primeiro: sou amigo de Lula, tenho por ele admiração, respeito e simpatia. Nem por isso deixo de perceber que o Lula presidente difere bastante do Lula sindicalista e do Lula fundador do PT.
Segundo: o PT pintou como partido autêntico, mas no poder igualou-se aos demais. É a minha opinião, corroborada de resto por algumas verdades factuais.
Terceiro: tenho certeza de que Lula gostaria de colocar Dilma Roussef na presidência e como já disse aqui neste espaço excluo a possibilidade de qualquer tentativa de lançar a candidatura com antecedência para queimá-la rápida e fatalmente,
Quarto: ao falar da simpatia que Lula experimenta por Serra refiro-me a certa fonte por ser boa, embora não possa citá-la. Nada disso significa que Lula estaria disposto a apoiar a candidatura à presidência do governador de São Paulo e muito menos descortinaria a perspectiva de uma aliança entre petistas e tucanos.
Quinto: em uma longa entrevista que fiz com Lula em 2005, lá pelas tantas ele disse textualmente: “Você sabe que eu nunca fui de esquerda”. Retruquei de imediato: não concordo, como líder operário e como fundador do PT, você foi de esquerda sim, e para ser de esquerda não é preciso ler Marx e ter passado uma temporada em Moscou. Citei Norberto Bobbio, para quem, depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia de esquerda ficou por conta de quem não se contenta com a afirmação da liberdade e se empenha e favor da igualdade. Aí Lula disse: “Se for assim, claro que sou de esquerda”.
De verdade, a personagem é controversa. Recordo um dia de 1978, casamento de Bárbara, uma das duas filhas de Cláudio Abramo. Compareceram intelectuais e artistas e a liderança nascente do metalúrgico presidente do sindicato de São Bernardo e Diadema de repente virou assunto. Havia ali gente do peso de Mario Pedrosa e Flavio Rangel. Estava também um jovem Eduardo Suplicy. As opiniões a respeito de Lula eram discordantes. Não faltou quem afirmasse que ele era agente duplo, trabalhava para a CIA. No fundo, o debate continua. Para mim, está claro que Lula gostou muito do poder e fez concessões profundas à direita. No entanto, no Brasil de hoje, está à esquerda do tucanato e da mídia nativa. E eu continuaria a votar nele.
segunda, 01 de dezembro de 2008 às 19:06
PCI e compromisso histórico
Respondo ao Leo. Receio que Cesare Battisti pertença a uma categoria especial, que não é a minha, tampouco a do Leo. O compromisso histórico não passou de boa intenção não realizada, em primeiro lugar porque Aldo Moro foi assassinado. Levaria os comunistas a partilharem o poder, e francamente não me parece que figuras como Berlinger, Amendola, Pajetta, e tantos outros fossem de direita. O PCI afastou-se do Kremlin e negou certos dogmas do marxismo-leninismo, mas os fatos provam que nunca deixou de ser de esquerda e de lutar a favor dos movimentos sociais. Ao Leo me agrada responder, enquanto outros navegantes são inabordáveis.
segunda, 01 de dezembro de 2008 às 19:05
Espernear é preciso
Respondo ao Moita. Costumo é falar de minoria e maioria. Claudio Lembo disse minoria branca. Esclareço: a maioria é submissa, passiva, resignada. A minoria privilegiada, ou aspirante ao privilégio, cuida dos seus próprios interesses e se alimenta do verbo do Jornal Nacional e da Veja. E a maioria que se moa. Há fortes, imperiosas razões para explicar esta situação, como o companheiro Moita deve saber. Não foi e não é assim em todas as épocas e em todas as latitudes. Houve revoluções e levantes populares que deram certo, pelo menos por algum tempo. Houve guerras de independência, aquela que nós não tivemos. Houve guerras de resistência, como a do Vietnã, a envolver uma nação em peso. Houve manifestações maciças e greves gerais para paralisar cidades e países. Isto tudo, diria o ditador Figueiredo, tem cheiro de povo. Acho que o caminho que leva à conquista da consciência é longo e difícil, creio, porém, que o povo brasileiro, ao qual pertencemos, ainda vai chegar lá. De minha parte, consciente da minha cidadania, resisto e esperneio dentro das minhas possibilidades.
segunda, 01 de dezembro de 2008 às 18:58
História de polichinelos
Respondo ao Dagoberto. A história contada pomposamente pelo Observatório da Imprensa e pelo Estadão é a mesma relatada com todos os detalhes por CartaCapital na edição de 25 de janeiro de 2006, na moldura da reportagem de capa, que revelava as provas definitivas da relação espúria de Daniel Dantas com a Brasil Telecom. Era a época em que a juíza Ellen Gracie, do STF, resistia a abrir o disco rígido do Opportunity. O ponto principal da reportagem era a agenda do presidente da Brasil Telecom Participações, ou seja, o lobista de luxo do orelhudo, Humberto Braz, a mostrar que ele se encontrara com as figuras principais do escândalo chamado mensalão. Em um quadro, vinha a história da juíza Marcia Cunha nos mínimos detalhes. Donde, aquilo que no dia 29 passado foi apresentado como novidade deveria ser do conhecimento da praça há quase três anos. Disse deveria e sublinho. Não foi, e não era até anteontem, por que a mídia nativa recebe as informações de CartaCapital com o costumeiro, inevitável, estrondoso silêncio, em detrimento dos seus próprios leitores e das regras elementares do jornalismo correto. Coisas deste nosso infeliz país, onde o objetivo dos donos do poder é enganar, manipular, obscurecer, obnubilar. Quem estiver interessado busque no site de CartaCapital a íntegra da reportagem em questão e saiba hoje o que poderia ter sabido há quase três anos. Quanto ao Observatório da Imprensa, ainda bem que observa.
segunda, 01 de dezembro de 2008 às 13:05
Fé e política
Respondo a Ronaldo. Falo do Vaticano na qualidade de cidadão do maior país católico do mundo. E também por causa do meu sangue italiano. Já disse e repito: respeito a fé de cada um, mas sinto repulsa diante violência e desmandos cometidos em nome de Deus, venham de onde vierem.
Respondo ao Silvio Conde. Grana é o que não falta ao Vaticano, sobretudo depois da extraordinária atuação no comando das finanças papais do cardeal Ruini, um Paul Volker com menos escrúpulos. Observe que lá mesmo, entre aqueles muros sagrados, funciona o paraíso fiscal mais refinado do mundo, o IOR, dirigido em outros tempos por monsenhor Marcinkus, o “banqueiro de Deus”. Só para citar um exemplo: Marcinkus esteve envolvido nos maiores escândalos financeiros ocorridos na Itália, com ramificações no exterior, entre as décadas de 70 e 80. Época em que lojas maçônicas, Máfia e Vaticano agiram em parceria, ao sabor de falcatruas monumentais e até assassínios.
segunda, 01 de dezembro de 2008 às 12:50
Lula e a eleição
Que Lula já mire em 2014 não ofende a democracia. A Constituição, todos sabem, não permite duas reeleições mão não nega a eleição de um ex-presidente, decorrido pelo menos um mandato de quem lhe sucedeu. Resta ver quem será o sucessor de Lula e como se portará no governo. Caso tenha sucesso, talvez a mira tenha que ser deslocada para 2018. Sei de boa fonte que Lula simpatiza com Serra. É, pelo menos, o que tem dito a amigos. E até afirma que algumas idéias do governador de São Paulo coincidem com as suas.
Perfil
Mino Carta dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, IstoÉ e CartaCapital, da qual é diretor de redação.
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