quarta, 04 de fevereiro de 2009 às 12:59

A despedida

Quando escolhi o Brasil como lugar definitivo da minha vida, optei também pelo jornalismo. Existe uma indissolúvel conexão entre as duas atitudes. E explico. Até o golpe de 1964, fui jornalista com séria dedicação profissional. De alguma forma mercenário, no entanto.
Diga-se que, depois da renúncia de Jânio Quadros, em agosto de 1961, quando a pressão militar só permitiu a posse de João Goulart, sucessor constitucional, ao forçar a adoção do parlamentarismo, eu ficara de sobreaviso. Mas o golpe se deu também sobre a minha alma e motivou minhas escolhas definitivas.
Entendi que fosse meu dever praticar o jornalismo em um país submetido à ditadura imposta pela classe dominante com a inestimável ajuda dos seus gendarmes, e que se uma única, escassa linha da minha escrita sobrasse para o futuro, teria conseguido conferir um mínimo de importância à minha profissão. Faço questão de sublinhar que não agia desta maneira pelo Brasil, e sim por mim mesmo.
Quarenta e cinco anos depois, vivo uma quadra de extremo desalento, em contraposição às grandes esperanças alimentadas durante a ditadura. Logo frustradas pela rejeição da emenda das eleições diretas após uma campanha a favor que honra o povo brasileiro. Fez-se, pelo contrário, a conciliação das elites, nos exatos moldes previamente desenhados pelo general Golbery do Couto e Silva. A aposta do Merlin do Planalto estava certa e vale até hoje.
Fez-se a conciliação para eleger Fernando Collor e para derrubá-lo. E novamente para eleger Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998. A Carta aos Brasileiros assinada por Lula foi uma tentativa de aparar arestas antes do pleito de 2002, aparentemente mal-sucedida, por ter convencido um número bastante diminuto de privilegiados. A conciliação veio depois da posse, a despeito do ódio de classe que até o momento cega a mídia.
A mim, que estou de olhos escancarados, a Carta convenceu por considerá-la sincera. Naquela época, não cansei de definir Lula como um conciliador desde os tempos da liderança sindical. No governo, contudo, ele foi muito além das minhas expectativas. Ou, por outra: deu para me decepcionar progressivamente.
O balanço de seis anos de Lula no poder não é animador, no meu entendimento. A política econômica privilegiou os mais ricos e deu aos mais pobres uma esmola. Há quem diga: já é alguma coisa. Respondo: é pouco, é uma migalha a cair da mesa de um banquete farto além da conta. O desequilíbrio é monstruoso. Na política ambiental abriu a porta aos transgênicos, cuidou mal da Amazônia, dispensou Marina Silva, admirável figura, para entregar o posto a um senhorzinho tão esvoaçante quanto seus coletes.
A política social pela enésima vez sequer esboçou um plano de reforma agrária e enfraqueceu os sindicatos. E quanto ao poder político? O Congresso acaba de eleger para a presidência do Senado José Sarney, senhor feudal do estado mais atrasado da Federação, estrategista da derrubada da emenda das diretas-já e mesmo assim, graças ao humor negro dos fados, presidente da República por cinco anos.
Outro que foi para o trono, no caso da Câmara, é Michel Temer, um ex-progressista capaz de optar vigorosamente pelo fisiologismo. Reconstitui-se o “centrão” velho de guerra, uma das obras-primas da conciliação tradicional. Enquanto isso, o Brasil ainda divide com Serra Leoa e Nigéria a primazia mundial da má distribuição de renda, exporta commodities, 55 mil brasileiros morrem assassinados todo ano, 5% ganham de 800 reais pra cima. E 2009 promete ser bem pior que pretendiam os economistas do governo.
Houve, e há, justificadíssima grita quanto às privatizações processadas no governo FHC. E que dizer do BNDES que empresta aos bilionários para armar a BrOi, a qual (é uma modesta previsão) acabará nas mãos de ouro de Carlos Slim? E que dizer da compra pelo governo de 49% das ações do Banco Votorantim à beira da falência?
Em um ponto houve melhoras sensíveis, na política exterior. E aí vem o caso Battisti. Até este serve ao propósito da conciliação, a despeito das críticas bem fundamentadas da mídia.
O ministro Tarso Genro disse em Belém que a favor da extradição de Battisti se alinham os defensores da anistia aos torturadores da ditadura, “com exceção de Mino Carta”. Agradeço a referência, observo, porém, que o ministro cai em clamorosa contradição. Não foi ele quem, em rompante que beira a sátira volteriana, sugeriu à Itália baixar uma lei da anistia igual àquela assinada no Brasil pelo ditador de plantão?
Talvez o ministro não saiba que enquanto no Brasil vigorou o Terror de Estado, na Itália houve uma gravíssima e fracassada tentativa terrorista de desestabilizar um Estado democrático de Direito estabelecido desde o fim do fascismo.
Se eu digo que o Festival de Besteira assola o País desde a época de Stanislaw Ponte Preta, e que se o ministro merece o Oscar do Febeapá, ao menos o professor Dalmo Dallari faz jus a uma citação, recebo as mensagens ferozes e as agressivas admoestações de centenas de patriotas. Pois não é bobagem (sou condescendente) dizer que na Itália dos anos 70 estava no poder um governo de extrema-direita, ou que se Battisti for extraditado, de volta ao seu país corre até risco de vida? Ou afirmar que Mestre e Milão, norte da península, são muito distantes, quando entre as duas cidades há menos de 200 quilômetros? Sem contar que, como me levam a observar vários frequentadores do meu blog, Battisti foi o autor do homicídio de Mestre e apenas o idealizador daquele de Milão.
Está claro que o ministro Tarso não erra ao dizer que a mídia nativa está sempre a agredir o governo de Lula, e contra esta forma desvairada de preconceito CartaCapital tem se manifestado com frequência. Ocorre que, ao referir-se à extradição negada a mídia está certa, antes de mais nada em função dos motivos alegados, a exibir ao mundo ignorância, falta de sensibilidade diplomática e irresponsabilidade política, ao afrontar um estado democrático amigo.
De todo modo, Battisti transcende sua personalidade de “assassino em estado puro”, segundo um grande magistrado como o italiano Armando Spataro, para se prestar a uma operação que visa compactar o PT e empolgar um certo gênero de patriotas canarinhos.
Isto tudo me leva a uma conclusão desoladora, embora saiba de muitíssimos leitores generosos e fiéis: minha crença no jornalismo faliu. Em matéria de furo n’água, produzi a Fossa de Mindanao, iludi-me demais, mea culpa.
Donde tomo as seguintes decisões: despeço-me deste blog e, por ora, calo-me em CartaCapital.
Creio que a revista ainda precise de minha longa experiência profissional, completa 60 anos no fim de 2009. Eu confiei muito em Lula, por quem alimento amizade e afeto. Entendo que o Brasil perde com ele uma oportunidade única e insisto em um ponto já levantado neste espaço: o próximo presidente da República não será um ex-metalúrgico com quem o povo identifica-se automaticamente. Conforme demonstra aliás o índice de aprovação do presidente, cada vez mais dilatado.
Vai sobrar-me tempo para escrever um livro sobre o Brasil. Talvez não ache editor, pouco importa, vou escrevê-lo de qualquer forma, quem sabe venha a ser premiado pela publicação póstuma.

 

terça, 03 de fevereiro de 2009 às 12:55

O Zena de Juscelino

Registro a inauguração em São Paulo, rua Peixoto Gomide entre Oscar Freire e Barão de Capanema, do Zena, refinado snack-bar de iguarias genovesas com adendos ligúrios. Zena, em dialeto, quer dizer Genova, a cidade em que nasci, algo assim como a capital da Ligúria, terra de Colombo, de Eugenio Montale, de Piero Germi, de Vittorio Gassman, de Renzo Piano, de Nicoló Paganini, de Leon Battista Alberti, de Ítalo Calvino. Fundador do Zena o mesmo adorável Juscelino que manda há anos no Piselli com êxito extraordinário. Óbvia a minha simpatia pelo novo recanto, sem contar que por lá andei a dar palpites. Em primeiro lugar, na receita da sardenaira, uma foccacia coberta de molho de tomates, enriquecida por filés de enchova, azeitonas pretas, alcaparras e dentes de alho com casca e tudo, distribuídos com senso de equilíbrio, e enfim perfumada pelo orégano. De verdade, a sardenaira assim é chamada em Sanremo, onde nasceu minha avó materna, que a mim revelou quando da minha mais tenra infância. Mas a mesma receita faz a fragrância das mesas de toda a riviera, de Alassio a Nice, que há 150 anos ainda se chamava Nizza, terra de Garibaldi. Em cada lugar, assume um nome diferente: é pisciarada em Bordighera, pissalandrea em Ventimiglia, pissaladiere em Nizza, perdão, Nice.

 

terça, 03 de fevereiro de 2009 às 12:33

Os fascistoides

Respondo a José Carlos Tressino. O deputado Pirovano milita na Liga Norte, que você define como partido conservador. Com extrema generosidade. O deputado Pirovano é um fascistoide, um destes patriotas de fancaria que o doutor Samuel Johnson estigmatizou à perfeição, ao dizer: a pátria é o último refúgio dos canalhas. Não vale a pena levar a sério o que figuras como Pirovano dizem ou fazem. Infelizmente, o ministro Tarso Genro deu asas ao governo. Insisto, a questão transcende Battisti e seus crimes, ao longo de uma carreira iniciada muito antes da “conversão” à causa revolucionária. Acontece que o ministro Tarso afrontou gravemente o Estado italiano ao comparar, na prática, a Itália a Darfur, e ao desconhecer verdades históricas insofismáveis. Veja só que adubo para a fúria fascistoide às soltas depois da vitória eleitoral da direita.

 

segunda, 02 de fevereiro de 2009 às 18:17

Battisti, Mitterrand e o professor Dallari

Respondo a Rafael Cislinschi. Por que a Itália não reagiu como reage agora quando a França negou a extradição da senhora Petrella, terrorista das Brigadas Vermelhas? É verdade, a criminosa em questão está muito doente, mas a diferença entre aquele comportamento e o atual é clara. Não é um ponto a favor do governo italiano. Quanto a Battisti, a questão já foi fartamente explicada: ao fugir da península, Battisti andou por diversos lugares até alcançar a França, para gozar dos benefícios da chamada Doutrina Mitterrand, que concedia asilo a terroristas de todas as nacionalidades. Quando Chirac chegou ao poder, cancelou a tal Doutrina e a Itália imediatamente pediu a extradição de Battisti. O processo seguiu os caudalosos trâmites previstos pela lei internacional, enquanto o nosso herói, para não perder o hábito, acabou na cadeia francesa por tentativa de rapina. Passou um tempo de cárcere, enfim ficou em prisão domiciliar. Neste momento, a Justiça francesa autoriza a extradição e ele foge para o Brasil. Tal é a verdade factual. Enfim as observações do professor Dallari, freqüentador imprescindível do Febeapá. Ele sustenta, por exemplo, que a Itália na década de 70 estava entregue a um governo de extrema direita. Outra é essa, no caso de dois assassínios, cometidos por Battisti no mesmo dia, 16 de fevereiro de 1979, a acusação é inaceitável pois os locais dos crimes são muito distantes uns dos outros. Anote, por favor: vai-se de Mestre a Milão de trem em pouco mais de duas horas. De carro o tempo de viagem é ainda mais curto. O professor Dallari não conhece a história e tampouco a geografia.

 

segunda, 02 de fevereiro de 2009 às 17:34

Meus agradecimentos

O Febeapá não sossega, em compensação ganho elogios de muitos navegantes. O que me toca, e profundamente, muito mais que os elogios, é o carinho, e não exagero ao deitar no papel esta palavra. Obrigado e obrigado, do fundo da alma. Obrigado, inclusive, pelas palavras sensatas e pela boa informação de quem, sem deixar de ser brasileiro e de se orgulhar de sê-lo, critica um ato estulto, primário, cometido pelo governo do País. Ligou-me de Roma um caríssimo amigo que acompanha este blog. sexta-feira passada. Estava indignado com a lição de democracia que nosso infeliz minstro da Justiça pretendeu dar à Itália, de verdade uma aula de Febeapá. O amigo é comunista desde a juventude, hoje vota, obviamente, no Partido Democrático contra Berlusconi. Anotou, porém: “graças a Deus, tem muita gente de qualidade no Brasil, constato pelas mensagens que você recebe, gente séria que sabe o que diz”. Pois é, tem mesmo, e para mim compensa tudo o mais, a começar pela implacável sequência de ratas de Tarso Genro.

 

segunda, 02 de fevereiro de 2009 às 13:11

Lagarride e Tarso Genro

Telefona Jean-Paul Lagarride de Darfur. Pergunta: “Vem cá, o Tarso Genro quer declarar guerra à Itália?” “Talvez”, admito. Segue-se o seguinte diálogo.
Ele – Além de jurista, trata-se de um professor de história e ciências políticas. Um mestre.
Eu – Você acha?
Ele – Claro, acaba de dar à Itália uma aula de democracia. Como o Brasil saiu dos seus anos de chumbo? Com a lei da anistia. A Itália, até hoje, não fez a sua lei da anistia.
Eu – Deve ser porque a Itália não teve um general Golbery.
Ele – Pois é. E como o velho Golba fez à Itália.
Eu – Quem sabe o nosso Tarso não tenha percebido que há chumbo e chumbo?
Ele – Pois é. O Brasil de 1964 a 1985 sofreu uma ditadura capaz de criar um poderoso, feroz Terror de Estado, saiu dela porque o Golbery inventou a distensão que depois virou abertura pelo caminho das indiretas, exatamente com o Merlin do Planalto decidira, e com os candidatos por ele mesmo escolhidos: Paulo Maluf e Tancredo Neves.
Eu – A Itália nos anos 70 tornou-se a área de um confronto violentíssimo gerado pelo terrorismo, de esquerda e de direita, destinado a subverter a ordem, desestabilizar o País e impedir a ascensão dos comunistas ao poder, os comunistas eurocêntricos que haviam rompido com os dogmas moscovitas. Enquanto a ditadura brasileira cometia barbaridades sem conta à sombra do AI-5, o Estado italiano enfrentou o terrorismo sem alterar sua Constituição. Seria interessante que Tarso Genro e o advogado Greenhalgh consultassem os livros.
Ele – Será que são dados a certas leituras? Imagino que preferiam ler somente o que lhes interessa.
Eu – Não sei, mas a literatura a respeito de como a Itália saiu do fascismo é farta. Ao contrário do que aconteceu no Brasil, o povo elegeu uma Constituinte exclusiva que se habilitou a produzir uma Carta de longa vida, dura até hoje para garantir o Estado democrático de direito. Nos anos setenta, torturadores do Terror de Estado brasileiro davam aulas no Chile e no Uruguai.
Ele – Aliás, o político que comandou a operação parlamentar que derrotou a emenda das eleições diretas...
Eu – Desculpe se interrompo, eleições diretas que o povo reclamou com uma campanha maciça e empolgantes, um grande movimento que honra a nação...
Ele – Falava do tal político, José Sarney, ao cabo virou presidente.
Eu – Os fados gregos são grandes humoristas. Diga-se que o quinta coluna durante a campanha das diretas-já, o agente infiltrado, foi Tancredo Neves.
Ele – Outra comparação inadequada diz respeito ao tratamento aos imigrantes. Bem, o Brasil tem espaço à beça, a Itália está super-lotada.
Eu – Sacrossanta verdade. Também é verdade, porém, que a atual maioria parlamentar liderada por Silvio Berlusconi baixou leis de inspiração fascista para conter a chegada dos imigrantes, ou limitar seus direitos na Itália. E eis outro aspecto da questão que acentua e sublinha o erro de Tarso Genro: com sua decisão, dá combustível aos fascistóides da política berlusconiana.
Ele – E agora?
Eu – Sei lá.

 

sexta, 30 de janeiro de 2009 às 19:03

A verdade factual

Alguém se queixa: neste blog só se debate o Caso Battisti. De verdade, temos é falado também de poesia, de uns tempos pra cá, e de literatura em geral. Vale lembrar que, tempos atrás, anunciei a decisão de não mais escrever sobre a extradição negada. Observem, entretanto, como o assunto toca os navegantes e multiplica suas mensagens. E eu caio na esparrela, e respondo. É que sou, por natureza, inclinado à ilusão, e acredito na tal verdade factual aprendida com Hannah Arendt. Também acredito na capacidade do gênero humano de aceitá-la, quando se apresenta de forma irretorquível. A suprema verdade factual é a morte. Aí pergunto aos meus céticos botões: como é possível que tantos companheiros de navegação não entendam porque o Estado italiano foi afrontado pela decisão do ministro Tarso? O governo brasileiro diz que o julgamento de Battisti foi viciado, inclusive por causa da situação “radicalizada” na Itália nos anos 70. O ministro da Justiça embasa seu argumento nas observações do professor Dallari, segundo quem na década em questão a Itália tinha um governo de extrema-direita. Além disso, o governo brasileira garante que, devolvido à Itália, Battisti corre até risco de vida. Qual é a verdade factual? Nos anos 70 a Itália tinha um governo de centro, por meio de uma coligação da qual participavam também os socialistas. Os comunistas eram o segundo maior partido. O terrorismo, de diversos matizes, foi enfrentado sem o recurso a leis de exceção, o que foi considerado um grande exemplo de democracia em todo o mundo civilizado. Battisti foi julgado à revelia porque foragido, a condenação não se valeu apenas da delação premiada de um ex-companheiro do réu, mas de depoimentos de várias testemunhas, algumas oculares. A Corte de Haia reconheceu que Battisti teve sempre defesa correta em todos os processos, na Itália e na França. Segunda parte da questão: ao dizer que a Itália não garante a vida dos seus encarcerados é o mesmo que compará-la a Darfur. A Itália tem uma Constituição entre as mais longevas do mundo, é uma democracia solidamente assentada desde o fim do fascismo, e nela vigora o Estado de Direito até limites que poucas outras nações alcançam. Estas são verdades factuais. E que esperava o governo brasileiro? Que os italianos engolissem mansamente a afronta? Negar a verdade factual implica ignorância. Tanto mais grave se alimentada por mentiras.

 

sexta, 30 de janeiro de 2009 às 18:15

O samaritano Suplicy

Comovedor o denodo com que o senador Eduardo Suplicy se empenha a favor de Cesare Battisti. Na noite de ontem tive um súbito ataque de choro ao pensar neste específico esforço senatorial. Entre outros lances, é ele quem organiza entrevistas com o asilado, por ora ainda preso na prisão da Papuda, em Brasília. A primeira foi dada à revista Istoé. Consta que a primazia concedida à publicação da Editora Três não agradou outros órgãos da mídia nativa e, inclusive, alienígena. Há quem observe que advogado de Battisti, Greenhalgh, defende também Daniel Dantas em uma das suas muitas pendengas. Por sua vez, o banqueiro orelhudo seria sócio da Editora Três, e aí o círculo estaria gloriosamente fechado. Eles que se entendam. Resta em cena, de todo modo, o grande samaritano, namorado da filha do professor Dalmo Dallari, o qual é vizinho de casa em Paris, a Ville Lumiere, da escritora Fred Vargas. E aí outro círculo se fecha. Há dias trombeteavam que a primeira-dama da França, Carla Bruni (Fred alega ser sua grande amiga), apoiava a decisão do governo brasileiro em relação a Battisti. Ocorre que não mais tarde de dia 25 passado, dona Carla compareceu ao programa de Fabio Fazio na televisão peninsular, e à pergunta “a senhora intercedeu a favor de Battisti junto ao presidente Lula durante sua recente visita ao Brasil?” repondeu com firmeza: “Trata-se de uma calúnia “. Em seguida, prestou solidariedade às famílias das pessoas assassinadas pelo nosso querido refugiado político. Às vezes, Suplicy e sua turma enganam-se.

 

sexta, 30 de janeiro de 2009 às 11:52

A “minha” Itália

O Febeapá a propósito do Caso Battisti fermenta alegremente. Deixo para lá, limito-me a responder ao patriota Afonso de Oliveira. Pergunta-me: “que acha desta sua Itália, tão bem idealizada” que estaria na iminência de aprovar mais uma lei racista sobre segurança. Pois é, esta minha Itália... Sempre a mesma ladainha, o que me leva a dizer: tenho imenso orgulho, e sublinho imenso, da minha origem italiana. Cultivo as raízes da terra em que nasci, e vou em busca delas sempre que posso. Aqui estou, porém, e aos que suponho serem os interesses da nossa nação dediquei minha vida de jornalista. Procurei exercer a profissão com dignidade, o que me levou e me leva a escrever frequentemente contra a Itália de Berlusconi, de resto alvo inextinguível da crítica negativa de CartaCapital. Para mim é doloroso, por exemplo, verificar que metade dos italianos votam neste palhaço da contemporaneidade, e, portanto, na sua desfaçatez, no seu oportunismo, na sua irresponsabilidade, no seu descaso em relação ao bem público. Est modus in rebus, entretanto. A Itália dos anos 70 não era a dos dias de hoje, prometia um futuro bem melhor do que o atual. Dizer o contrário é exibição lamentável de ignorância, quando não significa mentir. Berlusconi nada tem a ver com o Caso Battisti. É sabido, inclusive, que no começo da história ele teria preferido evitar a extradição, para escantear problemas. Não foi ele quem a solicitou, foi o governo anterior, de centro-esquerda. Isso tudo não é invenção, igual aos argumentos do ministro Tarso, é a verdade factual. E vamos parar com este negócio deplorável da “minha” Itália e do “seu” Brasil.
 

 

sexta, 30 de janeiro de 2009 às 11:38

Sobre poesia etc.

A seleção dos grandes escritores brasileiros não é um time canarinho que adentra ao gramado. Quando me manifesto a respeito de poetas, exponho apenas a minha opinião, e sei, sinceramente, que ela tem valor bastante relativo. No mais, concordo com Jair: vivemos um momento de escassa produção literária de alta qualidade. Não somente no Brasil, contudo. E os melhores estão a nos deixar. John Updike, por exemplo. Não chega a me deslumbrar, mas é excelente escritor, como Philip Roth, que avança inexoravelmente idade adentro.

 

 

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Mino Carta dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, IstoÉ e CartaCapital, da qual é diretor de redação.

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