quarta, 24 de dezembro de 2008 às 09:33

Em busca do sapato de ouro (3)

Respondo a Charles L. Penn. Cinderela? Bem lembrada. Quanto ao príncipe, não foi ele quem a encontrou, foram seus fâmulos. Confesso que não tenho maior simpatia pelo príncipe, o rapaz não me convence de inúmeros pontos de vista. Bem lembrados também os Nicholas Brothers, mas, se o assunto é sapateado, o mestre para mim é, e será, Fred Astaire. Quem sabe, ele também pudesse nos ajudar, nesta hora, a soltar os sapatos.
Respondo ao Bene. Há qualquer coisa de hierático em Theda Bara que Mistinguett não tem. Para o meu gosto, esta é brejeira demais.
Respondo ao Fabio Passos. Prometo de bom grado estudar em profundidade as suas sugestões.
Respondo a André Oliveira. Falo com os botões, mas a minha relação com eles, que estão longe de mágicos, não é a mesma de Pinóquio com o grilo falante. Quer dizer, meus botões não são a consciência a reclamar como o grilo, que considero obsessivo, conservador, tedioso. Acho que eles me abotoam, entre o fígado, o coração e a alma.

 

terça, 23 de dezembro de 2008 às 08:52

Delfim e eu

Recebo comentários a um editorial de CartaCapital que remonta a duas semanas atrás. Não tive tempo de responder na hora, faço-o agora. O que mais me impressionou foi a referência a Delfim Netto por seu passado de ministro da ditadura. Minha amizade com a personagem em questão remonta ao começo dos anos 60, antes do golpe. Ela ficou e dura até hoje. Ele jamais a traiu, embora tenhamos idéias opostas em relação a coisas de política, ou as tivéssemos em outros momentos. Hoje, por exemplo, Delfim está mais próximo do governo do que eu. Muito mais próximo. Mas eu dizia in illo tempore que ele serviria com a mesma competência Brejnev ou Reagan, assim como ele sempre me definiu como um irredutível anarquista de extração carbonária.
 

 

segunda, 22 de dezembro de 2008 às 10:19

Faoro e a esquerda

Respondo a Fabio de Oliveira Ribeiro e a Renata L. Por partes. Faoro não discordaria de Fabio quanto ao fato de que a maioria dos militantes que se dizem de esquerda querem emprego e renda. Acrescento, aliás, que os proletários europeus, em outros tempos, queriam era ser burgueses. Lá eles conseguiram. Na falta de bucha de canhão, grande parte dos seus líderes optaram pela social-democracia. Aqui entre nós os esquerdistas autênticos são raros, para não dizer raríssimos, e Raymundo Faoro seria o primeiro a reconhecer uma verdade factual. O autor de “Os Donos do Poder”, ao dizer que o debate esquerda-direita é válido no Brasil de hoje, sabe à perfeição quais são as condições reais. Expõe uma tese, talvez manifeste uma remota esperança, por mais arraigado que fosse seu ceticismo. O qual canta, alto e bom som: aquilo que você chama de “medo da queda” arrasta inexoravelmente os nossos esquerdistas de fancaria para a direita. No mais, afirmo que Faoro admirava Norberto Bobbio, com quem, de fato, tinha pontes de contacto. Faoro não era marxista, embora reconhecesse a importância de Marx. Era sobretudo um weberiano, e foi Weber o principal inspirador de sua teoria de estamento, a conduzir a história luso-brasileira a partir da dinastia de Avis. E, ao cabo, explicar tudo.
 

 

sexta, 19 de dezembro de 2008 às 14:07

Ainda o Roda Viva

Respondo a Lazlo Grosz. Não fomos convidados para o Roda Viva. Obviamente. O programa sofreu algumas modificações. Mudou o âncora e diminuiu o número de entrevistadores. Creio, porém, que submeter ao entrevistado os nomes dos escalados para interrogá-lo continue a ser de praxe. Excluo que Gilmar Mendes pudesse considerar aprazível a presença de um jornalista para representar CartaCapital. Mas também receio que a própria TV do governador Serra não se dispusesse a nos colocar na roda. Muito risco, não é mesmo? E para que corrê-lo?

 

sexta, 19 de dezembro de 2008 às 12:51

Lacunas

Respondo ao Jura. Confesso minha ignorância, não conheço qualquer biografia de Anita Garibaldi.
Respondo a Rafael Falsetti. Confesso minha ignorância, não sabia deste peixe australiano chamado Nemo. Logo, subiram à memória os livros de Verne.
Respondo ao Jair. Confesso minha ignorância, não assisto à novela “Os Mutantes”, e a qualquer outra. Mas acredito no que você me conta e acho então a sua observação perfeita. A novela é bem mais aprazível do que a vida real.
 

 

sexta, 19 de dezembro de 2008 às 12:47

Em busca do sapato de ouro (2)

A idéia do concurso recebe aplausos gerais. Há quem acredite que vai faltar munição e quem proponha o lançamento de um Vulcabras surrado. Anoto, no entanto, o aviso de Paulo César: aquele que define como “pistoleiro de chapéu” estaria a cogitar do mesmo gênero de pesquisa. Passarei os próximos dias a pensar no assunto. Temos de achar uma saída digna e eficaz, e para tanto conto sobretudo com os conselhos de Theda Bara.
 

 

sexta, 19 de dezembro de 2008 às 11:23

Na cozinha (9)

Respondo a Silvio Conde. Agradeço seu convite para um sururu amigo. Declaro, porém, minha ignorância: que é sururu?
Respondo ao Jura. Acho sua visão do nosso desastre culinário muito interessante.
Respondo ao Marc. Para neutralizar o pimentão basta um pouco de paciência.
Respondo ao André Lachini. Nada tenho contra o arroz branco para acompanhar comida oriental de intermináveis formas, e comida brasileira também, a partir do arroz e feijão, prato notável, a meu ver.
Respondo a Lulopret. Alho sem alma, me perdoe, é raríssimo, o dente a exibe mesmo quando não é longevo. Aceite, de todo modo, o abraço de um mediterrâneo, ribeirinho de um mar que começou em Beirut e acaba no Rio. Ou não seria Santos?
Respondo ao Leandro Tadeu. Só uso queijo em macarronadas que no molho incluem carne. Bovina, suína, de coelho, de cordeiro, de frango. Por exemplo: rigatoni à bolonhesa. Nas mesmas condições, risotos. Por exemplo: com lingüiça e radicchio, ao vinho tinto. Indispensável do cacio e pepe, alho e óleo com queijo e pimenta em grãos, prato da cozinha romana. Ou mesmo no risoto com funghi porcini, que se entrega prazerosamente a um bom caldo de carne, ou de galinha. Quanto ao nome, Mino não vem de Minotauro. Vêm, por incrível que soe, de Demetrio, nome que herdei do avô paterno e que figura nos meus documentos. O diminutivo de Demetrio na Sardenha, a ilha onde meu avô nasceu, é Mitino. Lá pelas tantas, ainda menino, achei Mitino muito infantil e optei por Mino. De Demetrio nunca gostei.

 

quinta, 18 de dezembro de 2008 às 19:27

Mazzini, Garibaldi e companhia

Respondo a André Lachini. Saiba que Giuseppe Mazzini começa a ser redescoberto por vários intelectuais europeus. Concordo, porém, quanto ao fato de Cavour e Garibaldi, personalidades opostas, foram artífices da unidade italiana. Cavour foi um grande estadista liberal, mas não creio que se dispusesse a anexar o Reino das Duas Sicílias não fosse a aventura solitária de Garibaldi e dos seus mil camisas vermelhas. No tabuleiro da diplomacia oficial, o ataque à dinastia Burbon de Nápoles não estava previsto. Garibaldi colocou os piemonteses diante do fato consumado. E Mazzini foi decisivo na formação de Garibaldi, e até do mito garibaldino. Quanto ao rei, limitou-se a oferecer seu rosto ao projeto do seu projeto do seu primeiro ministro e tutor. Meu filho, Gianni, prepara um livro sobre a criação do mito de Garibaldi para a Universidade de Londres, obra complexa que demandou e demanda largas pesquisas, inclusive no Brasil, na Argentina e no Uruguai, e por onde andou o “herói dos dois mundos”. Graças a Gianni, aprendi muito sobre a unificação italiana nos últimos tempos.

 

quinta, 18 de dezembro de 2008 às 17:55

Em busca do sapato de ouro


Tive uma conversa séria com os meus botões a propósito da sugestão do navegante Anon: propõe um concurso para saber em quem gostaríamos de jogar sapatos. Perguntei aos botões se uma pesquisa de tal porte não configuraria incentivo à subversão, a obrigar a intervenção de Gilmar Mendes, nosso baluarte do Estado de Direito, já convocado para conter o Estado Policial. A resposta foi desabrida, talvez em excesso, de sorte a me deixar de cabelos em pé. “Começaríamos por cobrir Gilmar Mendes com uma chuva de sapatos”, disseram os botões, impávidos. Balbuciei: “Mas se trata do varão de Plutarco número um...” Pasmem: caíram na gargalhada, e passaram a recomendar que aceite sem demora a proposta de Anon. Apesar dos pesares, meus botões têm uma influência forte sobre a minha pessoa, donde aviso aos navegantes: parto para a elaboração do regulamento, que vai demandar estudos profundos a serem realizados entre Natal e Fim de Ano. Pelos meus cálculos, será divulgado no começo de janeiro, depois de consultas junto a Paulo Henrique Amorim, Georges Simenon, Jean-Paul Lagarride, Niccolò Machiavelli e, talvez, Theda Bara.
 

 

quinta, 18 de dezembro de 2008 às 17:11

Falcone e os outros

Respondo ao Marco Clerris. Não conheci pessoalmente o juiz Giovanni Falcone, morto pela Máfia nas condições que você descreve. Grande figura de magistrado, o exemplo sempre apontado por Wálter Fanganiello Maierovitch. Outros tiveram a mesma coragem, e foram assassinados pelos criminosos sicilianos. Primeiro, o general Dalla Chiesa, morto no centro de Palermo, juntamente com a mulher, dentro de seu carro, por rajadas de kalashnikov. Recusava escolta e automóvel blindado. Depois outro magistrado notável, Paolo Borsellino.

 

 

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Mino Carta dirigiu as equipes criadoras do Jornal da Tarde e das revistas Quatro Rodas, Veja, IstoÉ e CartaCapital, da qual é diretor de redação.

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